Bancos Iorque

Diário de uma queda

2020.08.24 03:06 zephrot Diário de uma queda

Meu primeiro conto senão me engano, 8 anos atrás, resolvi revisar e mudar ele, masss antes disso quis postar a versão antiga antes da nova surgir, acho que é o certo a se fazer, espero que você ache minimamente interessante. :)

"Você é puro? Livre de pecados? Pronto para estar perto do nosso e único Deus? Se sim, zephyr É seu lugar"

Essa frase foi lançada desde o dia 1 de zephyr, uma bela mentira lançada para encobrir uma cidade podre por dentro, o que supostamente seria um templo no céu se tornou o túmulo de muitos, fora da casa em que me encontro ouço os sons de tiros e gritos, resultados da revolta contra o profeta, o cheiro de sangue invade pela janela, a cada poucos segundos ouço gotas de sangue e gemidos vindo de Arthas, o desgraçado demora pra morrer.
Não que isso seja ruim, demorei 10 anos para encontrar e matar o filho da puta, e ainda não me sinto satisfeito, não depois do que fizeram com minha família.
Dizem que acordar com uma visão do céu e sinal de boa sorte… creio que se isso fosse verdade eu teria sorte por toda minha vida.
Crescer nas nuvens teve suas alegrias, momentos perfeitos naquela cidade utópica criada pelos ideais de um fanático, uma cidade livre de pecadores, livre de raças inferiores, ali nos estávamos perto de Deus e ele perto de nos. Zephyr era seu nome, a joia do céu, a cidade livre de pecados, sua historia de origem? Bom, a real historia eu fui descobrir depois de muito tempo, mas a versão que nos era contada por nossos pais era a seguinte:
"Décadas atrás, quando o mundo estava perdido em guerra, uma criança nasceu em meio ao caos, uma criança que viria a ser nosso profeta, aquele que fundou nossa joia, nossa Zephyr. Sua infância perdida em meio a violência, se fez homem cedo e buscou em Deus refugio, e nosso amado Deus não deixaria tal criança sofrer em vão, a essa mesma criança foram dadas visões, visões na quais se via Zephyr. já como jovem iniciou a busca pela terra prometida ate se dar conta de que ele seria aquele que iria construi-la. E assim ele achou a entidade, o espírito do oeste, aquele que nos mantém no ar"
Se você achou vago, não se assuste, ele fez de tudo para deixar a narrativa aceitável, talvez tenha falhado em deixar convincente porem mesmo assim todos aqueles em Zephyr eram fiéis ao seu profeta... Pelo menos ele assim pensava. A historia não esta totalmente errada, na época como criança eu mesmo acreditava e orava pelo profeta, mas me perdoem, eu era tolo, e como tolo eu errei.
Com amor: Donnie
O cotidiano da minha infância seguia uma rotina bem simples, durante a semana aulas do começo da manha ate o fim da tarde, sábado passeios ocasionais com colegas de classe, aos domingos sempre tínhamos a santa missa, a qual todos os moradores de Zephyr eram obrigados a ir, isso resume minha vida desde os 8 aos 15 anos, mas uma hora ou outra a realidade bate em nossa porta.
Dia 30 de julho sempre foi uma data especial em minha casa já que marcava tanto o casamento de meus pais quanto o aniversario de minha irmã, Angie, ela era a nossa luz de cada dia, não importava o que acontecesse ela sempre sorria, sempre nos alegrava. Meu nome é Donnie, junto com Angie e meus pais Magnus e Cristine nos éramos a família Carter, uma família até que bem respeitada em nossa cidade, meu pai sendo um conhecido arquiteto e minha mãe uma dona de casa muito conhecida por seus doces, éramos em geral uma família feliz que ate esse ponto não tinha sido tocada por aquilo que Zephyr escondia.
Nossa cidade tinha uma ligação com o mundo terrestre graças aos dirigíveis, e logo abaixo de Zephyr havia uma pequena ilha onde ficava um terminal de abastecimento para nossos meios de locomoção além de uma pequena praia onde famílias podiam ir visitar e passar uma tarde agradável na areia ou no mar, contudo esse era o limite que o Profeta nos deu, qualquer contado maior com o povo da superfície podia nos influenciar no caminho do pecado, entretanto não era incomum nossa pequena ilha no meio do mar ser visitada por pessoas de grandes países, que são em sua maioria cheios de cidades, as que mais ouvíamos falar quando crianças eram Nova Iorque, Londres, Paris, e de um pequeno pais chamado Cuba, também não era incomum pessoas de cor aparecem por lá, mas logo eram detidas, pois de acordo com o Profeta, Deus marcou os pecadores com cores e características diferentes das nossas para que assim não nos envolvêssemos com o tipo errado de amizade.
Agora que expliquei o que e como funcionava a ilha, voltemos ao ponto em que parei, naquele dia para comemorar seu aniversario Angie quis descer ate a praia, ela amava a agua, desde pequena não gostava quando nossa mãe a tirava da banheira, ela era uma criança tão pura, fazendo seus 12 anos naquele mesmo dia. Como era seu aniversario meus pais não tinham como dizer não, escolhemos o primeiro dirigível das 9 da manha e descemos ate a praia, um detalhe muito importante era a maneira como minha relação com Angie funcionava, não era a típica relação de irmãos onde sempre há brigas, nos sempre apoiamos um ao outro, não importasse o que fosse, era tudo tão lindo ao lado de minha irmã, nosso percurso no ar levou cerca de 10 minutos, a excitação dela era palpável no momento em que ela viu o mar, meus pais como sempre abraçados e sorrindo ao ver o sorriso em seu rosto, pode parecer que meus pais não me davam bola, mas aquele dia era deles e dela, e eu me contentava por vê-los felizes, isso era mais que suficiente para mim, ao desembarcar no hangar de pouso a primeira coisa em nosso campo de visão foram as lojas da ilhas, um verdadeiro parque de diversão para Angie, só não era o mesmo para o bolso do meu pai.
Nossa primeira parada foi o carrinho de sorvete, uma tradição de nossa família toda vez que íamos ate lá. Angie avistou um vestido florido cheio de cores numa loja próxima, creio que ao ver isso a carteira de meu pai já começou a se preparar, devo mencionar que nos não éramos pobres, mas também não ricos como os Lannis ou os Bariens, mas vivíamos bem só que meu pai era mão de vaca mesmo. Creio que não seja necessária uma descrição detalhada de nosso dia na praia, comemos um belo café da manha, meus pai ficaram na areia abraçados enquanto eu e minha irmã estávamos no mar, pouco depois almoçamos ali mesmo na areia, a única parte realmente relevante dessa tarde foi que o capitão da guarda de Zephyr estava por perto e veio nos cumprimentar, seu nome? Arthas Lannis, um membro de uma das famílias mais ricas de zephyr, aquele filha da puta, pode ter demorado mas ele teve o que mereceu. Quando começou a escurecer meus pais decidiram que já era hora de irmos, e assim pegamos o próximo dirigível de volta para nossa cidade nos céus.
Lembram do amor de minha irmã por rosas? Eu não podia deixar isso passar em branco, assim que chegamos em nossa casa, pedi ao meus pais se poderíamos dar uma volta enquanto eles descansavam (eu sabia que eles queriam um tempo a sós) então foi fácil convencer eles, assim que eles liberaram saímos de casa, queria leva-la aos jardim da ilha do cardeal, esse era o bairro onde os membros do culto do Profeta moravam, então tínhamos que entrar as escondidas, mas valia a pena, eu sabia qual seria a reação dela ao ver o mar de rosas vermelhas daquele jardim, atravessamos a ilha onde nosso bairro se encontrava e fomos pela ilha comercial chamada de Lazaro, caso esteja confuso entender nossa cidade era dividida em ilhas flutuantes interligadas por bondinhos ou pontes, existiam dezenas de ilhas com vários tamanhos e utilidades diferentes, mas a mais imponente de todas era a ilha do Iluminado, chamada assim já que seu único habitante era ninguém mais ninguém menos do que o Profeta, entretanto não era permitido perambular perto daquela ilha, e isso nem mesmo eu ousava desobedecer, ao chegar na ponto que ligava Lazaro com Cardeal, tomamos cuidado para que ninguém nos visse e assim adentramos a ilha, ao passar pelo portao rodeado de madressilvas, logo ali na nossa frente, estava o que prometi a Angie, o mar de rosas mais lindo que jamais fora visto, lhe avisei que podia pegar apenas uma rosa para levar de lembrança, ela escolheu uma linda rosa vermelha bem gorda e sem nenhuma mancha. Ali estava ela, em pleno êxtase de animação ao segurar rosa em suas mãos, contudo, a realidade sempre bate em nossa porta não e mesmo? E foi assim que ela bateu na nossa. Um grito não muito longe de onde estávamos no alertou de que algo estava errado, puxei minha irmã pela manga e fui o mais rápido e silencioso possível em direção, esse foi meu primeiro erro, e paguei caro por ele, sem perceber acabei nos levando em direção do grito, ao chegar na intersecção das ilhas, bem em frente da ponte havias uma figura escura mesmo sendo iluminada por um poste, atrás dele um pouco retorcida havia uma criança chorando baixo, três homens carregando armas surgiram na frente do homem escuro, que mais tarde soube que na verdade ele era um afro descendente, o mais chamativo dos três homens que surgiram ira o conhecido Arthas Lannis.
Arrastei Angie comigo para trás de um banco perto da ponte, pensei que fosse ser possível esperar ali ate o que quer que fosse acontecer ali acabasse, esse foi meu segundo erro, mesmo de não muito perto pude ouvir a conversa entre eles:
– Por favor, minha filha e inocente, deixa-a ir – o tom de suplica em sua voz pegou de surpresa.
– A deixar ir? Ela carrega sua cor, a cor de um pecador, pelo bem de Zephyr não posso permitir esse tipo de gente em nossa cidade – quem falou isso? O capitão Arthas em pessoa, cuja frieza soava cortante.
– Meu Deus, protegei seu servo.. – antes dele prosseguir Arthas o acertou com uma coronhada.
– Quem você pensa que e para pronunciar o nome de Deus em vão? Raça imunda – uma segunda coronhada, dessa vez a menina começou a chorar de verdade. – Vão para o inferno, lugar onde o resto da sua raça te encontrara em breve. Guardas..
– Porque? – tanto eu e os guardas não sabiam em que reparar, na pergunta, ou na pessoa que a fez – Porque fazer isso com eles? Ele só esta protegendo ela – lá estava Angie, segurando sua rosa com ambas as mãos na espera de uma resposta;
Arthas foi quem se recuperou antes e disse:
– Vá para casa pequena, você não tem nada a ver isso – não havia cortesia em sua voz, aquilo tinha sido uma ameaça velada, infelizmente Angie não recuou, pelo contrario, enfrentou novamente o capitão se pondo na frente do homem escuro. – bom você não me deixa escolha criança – não havia hesitação em sua voz, ele nem sequer sentiu qualquer remorso – Guardas – lá estava eu paralisado, tanto por medo quanto pela própria cena em si – Apontar – minha voz não saia, nada que eu falasse ou tentasse pelo menos fazia, eu fiquei lá, parado, sem a mínima reação, esse foi meu terceiro erro, nesse meio termo, minha irmã com suas mãozinhas delicadas encaixou sua linda rosa no cano da arma do capitão, e mesmo assim, mesmo diante dessa cena não houve um brilho sequer de piedade em seus olhos, naquela horas eles estavam mais escuros do que nunca – Fogo.
Eu gritei, ao som do comando de Arthas eu gritei, mas voz nenhuma saiu, tudo o que consegui ver, foram pétalas queimadas daquela linda rosa boiando em um pequeno mar de sangue.
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2020.07.02 20:13 patriaOuMorte Escândalo do Banestado vê a luz do sol #BanestadoLeaks #CC5Gate

O Escândalo do BANESTADO (Banco do Estado do Paraná) surge em 1996 com a acusação de o doleiro Dario Messer ter desviado 228,3 mil dólares de uma conta da agência do banco em Nova York.
Abriu-se o caso envolvendo membros do Ministério Público, advogados, donos dos maiores órgãos de imprensa no Brasil, 526 pessoas físicas, a grande maioria de políticos de todos os partidos.
Uma CPI foi criada para investigar o escândalo. Ela teve como presidente o senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), como vice-presidente o deputado Rodrigo Maia (DEM, na época PFL-RJ) e como relator o deputado José Mentor (PT-SP).
Apurou-se que o valor ilegalmente retirado do Brasil foi 380 bilhões de dólares, o que constituiu até então o maior crime financeiro da história.
A fonte maior desta corrupção foram as privatizações do Governo Fernando Henrique Cardoso. Na área jurídica, o responsável foi o juiz Sergio Moro, que atendendo requerimento do Promotor Carlos Fernando Santos Lima, cuja esposa, Vera Lucia era gerente da agência Foz do Banestado, não anexou as provas no processo, fazendo com que os envolvidos fossem absolvidos “por falta de provas” nas instâncias superiores.
Entre os absolvidos estava o próprio relator, José Mentor, o Ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do Superior Tribunal Eleitoral (STE), o atual presidente do Senado, David Samuel Alcolumbre (DEM-AP), e o senador Tasso Ribeiro Jereissati (PSDB-CE), relator do recém aprovado projeto de privatização do saneamento básico no País.
O delegado José Francisco Castilho Neto, da Polícia Federal, que investigou o crime, foi transferido para o interior de Mato Grosso.
O portal Duplo Expresso por seu Editor-chefe, Romulus Maya, fizeram vir à tona todo este escândalo quando obtiveram as listagens das contas CC-5 (usadas para as transferências dos valores) e as encaminharam para análise por vários grupos no Brasil e no exterior.
Na quinta-feira, 25 de junho passado, e no domingo 28 de junho, o próprio advogado e blogueiro Romulus Maya iniciou a divulgação e análise dos inventários recebidos. Para Maya, a divulgação é importante para entender que o esquema de lavagem de dinheiro, por políticos e empresários em paraísos fiscais, está intrinsecamente ligado ao desmonte do Estado brasileiro, intensificado nos últimos quatro anos.
Em resumo, os doleiros enviavam recursos por meio de contas CC-5 da agência Foz, do Banestado, para agência em Nova Iorque. Quando o dinheiro chegava aos Estados Unidos da América (EUA), eles movimentavam os valores entre contas estadunidenses. Em seguida, enviavam a paraísos fiscais, para contas administradas pelos proprietários dos valores, mas registradas em nomes fantasias, ou estes valores retornavam ao Brasil, como investimentos estrangeiros.
Não se pode dizer que é um caso encerrado. Ao contrário, está começando e, além da punição dos culpados, agentes, auxiliares, ocultadores, espera-se uma auditagem nas contas bancárias para que não se repitam estes crimes.
No link abaixo está o programa do Duplo Expresso:
https://youtu.be/OUtCjCL3bis
Nos links abaixo você terá acesso ao dossiê das contas:
https://duploexpresso.com/wp-content/uploads/2020/06/BANESTADO-CC5-VOLUME-I.pdf
https://duploexpresso.com/wp-content/uploads/2020/06/BANESTADO-CC5-VOLUME-II.pdf
https://duploexpresso.com/wp-content/uploads/2020/06/BANESTADO-CC5-VOLUME-III-.pdf
Leia também o artigo:
https://duploexpresso.com/?p=110839
Via: AEPET
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2020.01.04 22:07 meucat Como seria um cenário apocalíptico real no caso do Irán ? como se proteger?, o que estocar? onde ir morar?

Vamos supor que Irán USA Russia China Israel e todo mundo fiquem ancorados nas suas posições até que uma catástrofe aconteça, tipo
a) Irán afunda alguns petroleiros americanos ou lança alguns misseis de longo alcance sobre Tel-Aviv
b) Israel responde lançando uma bomba atômica sobre alguma cidade iraniana
c) Russia intervem e afunda Israel com uma de hidrogênio
d) USA retalia com alguns misseis nucleares sobre Moscou
e) China manda ver seu arsenal sobre Nova Iorque e Chicago
f) Europa reage e também recebe pedradas da Russia e da China com Londres Paris Berlim etc indo para o beleléu.
g) Taiwán é imediatamente invadida. Shangai e outras cidades chinesas recebem sua dose de bombas .
h) Índia e Pakistan aproveitam a onda e se agarram a porradas com cidades estouradas uma atrás de outra.
i) Começa a parte de guerra convencional tentando invadir os territórios de um ou outro lado
Aqui na America latrina evidentemente as coisas não vão ser tão ruins no inicio, mas logo vai faltar tudo, gasolina, comida, produtos de primeira necessidade etc. e as cidades vão virar palco de atentados de todo tipo de seguidores de um e outro bando. Quem sabe toque de recolher em todo lugar, e quando sair na rua muito cuidado para não ser confundido preso e torturado (temos que ter em mente que o politicamente correto não vai existir mais).
Evidente que todo nosso mundinho de netflix internet gps tv a cabo e outras engenhocas vão desaparecer para sempre, ou pelo por um período muito longo. Como as TVs hoje são todas digitais, imediatamente iremos ficar também sem TV pois em todo mundo satélites e cabos submarinos serão cortados ou reservados apenas para uso militar.
Adeus whatsapp facebook instagram telegram e o cassete. Todo mundo isolado sem saber o que está acontecendo lá fora. Papel para jornal não vai haver então mesmo estes vão ser difíceis de achar. Sem gasolina barata viagens interestaduais ficam muito limitadas. Visitar o irmão que mora a 100 km. ficará difícil mesmo por ônibus.
Nos supermercados provavelmente vai faltar primeiro leite e produtos muito perecíveis como ovo, legumes etc., e se houver o preço estará nas nuvens. E vai continuar faltando por muitos anos. Quando houver, não vamos ter dinheiro para comprar.
Bancos e cartão de credito vão pro beleléu. Hoje tudo é digital, e sem internet vai acabar a vida fácil do "on line". Os que sobrevivam vai ser na base do caixa-humano como antes. Dinheiro em poupança, investimentos e outros do tipo irão ficar congelados por muito tempo até as coisas se definam. Isto quando os bancos não quebrem em massa por efeito dominó e levem todo nosso dinheiro. Quebram alguns grandes em USA ou Europa e arrastam os outros pelo resto do mundo.
Em junho 1914 foi assassinado o príncipe Ferdinando de Áustria, o que levou à primeira guerra mundial num cenário de super-potencias alinhadas irredutíveis, como poderia acontecer hoje. Assistam o vídeo
https://youtu.be/pBXQrDbq2j4
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2019.06.10 05:25 taish Afrodite e os clichês da representação transfeminina na mídia

Há alguns dias, a Shell lançou uma nova campanha publicitária para sua marca Rímula, de lubrificantes para caminhões. A série, chamada De Causo em Causo, fala em "histórias inusitadas e inspiradoras de caminhoneiros para mostrar que suas vidas vão muito além das estradas". E o primeiro filme traz uma mulher trans: Afrodite, que é caminhoneira, tem 70 anos, e três de transição.
++ https://www.youtube.com/watch?v=uCLwdjiEgD4
Que fique muito claro já de saída: é absolutamente louvável a atitude da Shell. Num momento político onde campanhas que retratam diversidade são censuradas, insistir em pautas de apoio LGBT+ é ainda mais importante. E essa é uma marca que atua em segmentos bastante sexistas, o que demonstra coragem e compromisso extra. Então, nesse sentido, parabéns ao marketing da Shell e à Wunderman, que assina a criação do filme.
Dito isso, o comercial é um arquétipo dos clichês sobre mulheres trans mais batidos possíveis, e de mau gosto, repetidos pelo jornalismo e pela publicidade. Podemos analisar decupando a peça:
1 - De cara, na cena de abertura: o documento masculino. Salta aos olhos a foto de um senhor grisalho, de nome Heraldo. No áudio, uma voz em off pergunta o nome da pessoa, e a resposta vem incongruente: "Afrodite". O artifício é absolutamente comum nas mais diversas representações sobre pessoas trans: demonstrar a imagem e o nome antigos. O efeito é, no mínimo, dúbio; e isso se traduz no que a filósofa Talia Bettcher descreve como um sistema de contraste entre aparência e realidade, usado para deslegitimar pessoas trans: enquanto a voz diz um nome feminino, o documento oficial afirma o contrário. A voz diz "mulher", mas a imagem diz "na verdade eu sou um homem". Embora o filme como um todo acabe apoiando a autodeterminação de gênero, quando colocado dessa forma, contradiz a importância e o efeito desse conceito; para o olhar preconceituoso, a resposta falada é mera aparência, enquanto o documento oficial é a realidade.
A bióloga e ativista trans Julia Serano também ressalta os efeitos desse tipo de cena: mostrar o nome e as fotos antigas permite ao público cissexista continuar privilegiando o sexo designado ao invés da identidade de gênero inata. De forma bastante cômoda, a cena permite à matéria ou comercial parecerem, de um lado, inclusivos; e de outro, confirmam aos anti-LGBT+ que as identidades trans são apenas "da boca pra fora".
2 - A câmera abre para revelar o rosto de Afrodite. Embora na minha opinião ela seja linda e aparente ser muito mais jovem do que é, a sombra de barba e a maquiagem pesada reforçam um imaginário onde uma pessoa trans é necessariamente o encontro entre dois gêneros; uma soma em que o resultado é um terceiro gênero distinto. Pode ser o caso para algumas identidades não-binárias, mas para outros, não. Ora, a qualidade da produção não deixa dúvidas de que a Wunderman poderia ter disponibilizado uma maquiadora para Afrodite, que teria lhe deixado mais natural e escondido a sombra dos pêlos faciais. (Que não se confunda respeito com hegemonia; nada errado em ter sombra de barba, ou barba, ou a configuração que houver. Mas num filme que retrata a vaidade e a feminilidade de uma mulher trans binária, se trata de cortesia.)
3 - Vemos objetos estereotipicamente associados à feminilidade, como um colar, esmalte, maquiagens. Afrodite pega um batom e o aplica usando o espelho do caminhão. Esse é outro clichê cansado da mulher trans na mídia: sempre há a cena do maquiar diante do espelho. Sem saber como retratar o feminino, publicidade e jornalismo buscam com essa cena recorrente continuar o enfoque na transformação sensacionalista: a história de alguém cruzando do ponto A para o B, realizando uma mudança considerada anormal, talvez chocante, às vezes quase impossível; um chamariz de audiência, que Serano compara aos reality shows de perda de peso, ou que mostram cirurgias estéticas, ou mudanças radicais de estilo. Basta olhar para a grade de programação de qualquer canal de TV a cabo que exiba reality shows: transformação improvável/impossível é um estilo que fetichiza o esforço de um terceiro que se dispõe a compartilhar uma metamorfose que, às vezes, é muito dolorida.
Além disso, Serano também aponta que a cena-clichê objetifica o corpo trans e reforça a feminilidade como algo construído; e mais, como algo artificial, aplicado sobre, uma frivolidade. Dessa forma, a mídia "neutraliza a ameaça potencial que as feminilidades trans impõem à categoria 'mulher'". Nas matérias e comerciais, a cena da mulher trans se maquiando é a cena onde se estabelece a mudança: a sequência entre a foto de Afrodite na CNH, e ela passando batom e rímel; mais uma vez o contraste realidade-aparência apontado por Bettcher. Não basta ser, é preciso "vestir" a identidade diante da câmera, como algo que se remove no banho, no apagar das luzes, no final do comercial. A noção do feminino como um construto, ou performance, vem sendo criticada desde o final dos anos 90 por acadêmicos dos trans studies como Prosser, Halberstam, Namaste, Whittle e muitos outros.
4 - Afrodite fala do seu passado e as profissões que teve, enquanto vemos fotos dela como homem. Corta para ela mexendo no seu caminhão. De todos os causos que uma caminhoneira de 70 anos deve ter, a criação da Wunderman selecionou uma passagem em que ela conta que teve uma malharia, e, com sua voz masculina, diz que "fabricou suas próprias calcinhas e bustiês". Mais uma vez o aspecto sensacionalista da transformação, da construção da feminilidade como artificial e frívola, fica escarrado.
5 - Vemos Afrodite caminhando de costas, falando ao telefone com a filha. A câmera foca nos saltos: altíssimos. Uma bela sandália, mas duvido que ela dirija seu caminhão neles. É compreensível que, diante do prospecto de aparecer num filme comercial, Afrodite queira estar bonita. Mas não se pode ignorar que, para um grupo que precisa constantemente se defender das acusações de fetichismo e autoginefilia, a direção de cena, que mostra em sequência CNH masculina, aplicação de maquiagem, fotos do passado, e salto alto, faz pouco além de continuar os mesmos clichês de construção artificial do feminino.
Na narração, Afrodite diz que se sentiu muito realizada ao ser pai, pois se identificou muito com sua filha. O filme fornece munição a terfs e radfems: a realização humana do pai como projeção de seu gênero na filha. Em que pese a escolha por esse causo mostre um momento importante de sua história, chama a atenção que o texto selecionado seja esse viver através do outro.
6 - Alternam-se imagens do rosto de Afrodite e de uma filmagem do passado, onde, como homem, pescava num barco. A narração fala de quando seu gênero incongruente morre, e nasce o congruente. O contraste entre as personas segue reforçando o aspecto sensacionalista da transformação. Afrodite diz que desde que nasceu, "nunca mais colocou nenhuma roupa masculina"; é a continuação do foco na roupa, na maquiagem, no saltão -- que aparece mais uma vez em close, quando ela entra em um bar. Muito certa está ela em se orgulhar de ter se livrado dos códigos de vestuário opostos, mas no contexto do comercial, sua identidade acaba reduzida a uma questão de guarda-roupa.
7 - Afrodite ajeita o colar, enquanto diz que não é um caminhoneiro que virou caminhoneira, mas que estava presa num corpo de homem. Aqui é onde a produção enfim se revela cruel: embora ela deixe claro como vê sua transição, o filme mostra exatamente o oposto -- como sua identidade foi construída com batom, rímel, salto exagerado, colar, menção à calcinhas, e projeção na filha. No 1'20 do filme, nenhuma cena faz juz à declaração final de Afrodite.
Poderia ainda criticar a escolha por destacar na edição de áudio a narrativa de corpo errado, que é hegemônica e por isso responsável por muita confusão e anos perdidos por pessoas trans que, ao questionar, não tem a mesma experiência e por isso duvidam serem trans. Mas como é a experiência dessa mulher, que se respeite.
8 - Ao final, Afrodite diz que venceu muitos preconceitos, e hoje é muito feliz. E eu fico feliz por ela, e que os criativos tenham terminado com uma mensagem impactante; clichê que seja, nada é mais forte (e incômodo, para alguns) que a felicidade alheia.
Não se trata aqui de condenar a Wunderman ou a Shell pela forma como utilizaram a imagem de uma pessoa trans pra vender lubrificante de caminhão. Nesse momento, apoio à diversidade é essencial e se traduz em incentivos éticos poderosos; e seja como for, mostrar a história de uma caminhoneira trans que transiciona aos 67 tem efeitos decididamente positivos. Mas já passou a hora da publicidade e o jornalismo repensarem a maneira de retratar as histórias de mulheres trans. É preciso mais atenção à multiplicidade de narrativas; mais respeito aos testemunhos destas pessoas; mais decoro na demonstração dessas trajetórias; mais dignidade e contemporaneidade ao retratar o feminino.
Referências:
BETTCHER, Talia. Appearance, reality and gender deception. In: MURCHADHA, Felix (ed.). Violence, victims, and justifications. New York: Peter Lang Press, 2006. p. 174-200.
BETTCHER, Talia. Trapped in the Wrong Theory: Rethinking Trans Oppression and Resistance. ​Signs, Journal of Women in Culture and Society. Chicago, v. 39, n. 2, 2014.
HALBERSTAM, Jack. Trans: a quick and quirky account of gender variability. Oakland: University of California Press, 2018.
SERANO, Julia. ​Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity. 2 ed. Nova Iorque: Basic Books, 2016. Edição do Kindle.
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